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Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Convexo

Já passaram Os Três Dias do Ano!
 
O ambiente numa festa é sempre aquele que fazemos dele e, nesta Festa, gerou-se um bom ambiente. Amigos de longa data que há muito não estavam assim... despreocupados, “desstressados”, livres, soltos. Foi bom!...
 
A Festa tinha um bom cartaz.Nada de nomes muitos sonantes, mas com uma grande oferta musical. Muito Jazz, muito Blues, muito Adriano, muito Zeca... parecia um programa feito por mim!...
Também haviam os Blind Zero, Sam The Kid ou Blasted Mechanism. Não vi nenhum deles! É que não desfazendo, a verdadeira Festa faz-se nos palcos pequenos, onde estão aqueles que ninguem ouviu falar, mas que nos brindam com agradáveis surpresas e concertos intimistas; está no convivio entre jovens dos 8 aos 80 anos (literalmente); está nas tasquinhas!
 
Este ano não consegui ir ao teatro. O tal bom ambiente tinha repercussões no dia seguinte e, como gosto de ir de manhã ou a seguir ao almoço, digamos que... não estava ainda disponível  Bienal pareceu-me mais fraca que o habitual; e no ano em que tinha decidido gastar os 75€ pelo primeiro vinil d’O Trovante (uma raridade) este, ao contrário dos anos anteriores, não havia na Feira do Disco!
 
Em termos de concertos não vi nem metade do que estava planeado. A tal quantidade na oferta levava a que houvessem alguns sobrepostos. Mas a Festa é assim, nunca sai como planeamos. É sempre uma surpresa, uma aventura! Também, quando a nossa entrada se faz pelos Mojitos de Cuba ou pela Caipiroska do Brasil, e ainda temos que atravessar todo o recinto, e tasquinhas, até chegar aos palcos!...
Mas não podia faltar à Brigada, que este ano homenageou o Adriano. Confesso que não foi dos melhores que já vi, mas à noite, os romenos Fanfare Ciocarlia animaram ao bom som "Kusturica", como lhe costuma chamar. O Sábado à noite foi soberbamente encerrado com os Chicago Blues Harp All Stars, num concertoem que o "bezidróglio" encaixou perfeitamente na minha cabeça com os acordes da banda. Fantástico!
No entanto, o ponto máximo estava para vir... Domingo ao início da noite... no Palco 1º de Maio, junto ao Lago: Jacinta!

A “nossa” Jazzista apresentou o seu ultimo album, lançado na Festa. “Convexo” é uma homenagem ao Zeca, num arranjo jazzistico das suas músicas. E que arranjo!...
O Zeca é uma referência na música portuguesa, sendo cantado por qualquer músico que se preze. GNR, UHF, Clã, Sitiados ou Delfins têm versões de músicas do Zeca, assim como tantos outros o cantam: Sérgio Godinho, José Mário Branco, Amélia Muge, Cristina Branco, Camané, João Afonso, Vitorino, Janita... e perdoem-me as pessoas que ficaram esquecidas”. Tantos que é impossível referi-los a todos!
 
Conheço toda a obra do Zeca, assim como as versões que se fizeram. Mas nenhuma se compara ao que assisti no Domingo à noite! Pode parecer um sacrilégio o que vou dizer, mas... superou o Zeca! Foi a primeira vez que senti isto, e não foi pelo “bezidróglio”!
Quando passei pela Feira do Disco encontrei-a a dar autógrafos... foi também a primeira vez que pedi um! Assinou-me o CD e eu, para retribuir aquele momento inesquecível que ela me tinha propocionado, dei-lhe o Cravo Vermelho já “amarrotado” que tinha no bolso. Tinha-me apaixonado!
Publicado por jpgn às 09:43
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Terça-feira, 31 de Julho de 2007

Não Há Festa Como Esta!

 
A Festa do “Avante!” promete este ano!

 
Para além da montra gastronómica do País inteiro, dos cantares alentejanos madrugada dentro, dos ranchos folclóricos do Palco Arraial, das jovens promessas do Palco Setubal, do convivio entre jovens dos 8 aos 88 anos, do desporto, dos vários debates politicos e sociais, das já famosas Feiras do Livro e do Disco, do teatro de rua e do Avanteatro e de todos os eventos culturais que durante três dias estarão patentes na Quinta da Atalaia; este é também ano da XV Bienal de Artes Pláticas, subordinada ao tema “Voa Mais Largo!”
Mas o prato forte é a música e foi aqui que a Festa se esmerou, com um dos melhores conjuntos de artistas dos últimos anos.
 
Tudo isto por 18€ (25€ para o bom Português que deixe para o último dia) numa prova de que a Solidariedade ainda consegue por de pé o maior evento cultural de Portugal... e arredores!
Mais do que um momento politico-partidário a Festa é um acontecimento cultural feito para toda a gente! Apareçam... se respeitarem os anfitriões, serão com certeza bem recebidos, independetemente dos credos!
 
 
Entre muitos outros, deixo aqui alguns dos concertos que certamente me farão correr de palco para palco, ao longo dos Três Dias do Ano:
 
Anti-clockwise
Os Anti-Clockwise começaram em 1996 como um projecto paralelo às bandas que Pedro Coelho (Mata-Ratos), João Brr (Dogue Dócil) e Rui Killito (Jack & Os Estripadores) tinham na altura. "Fazer a música que gostávamos e que não víamos ninguém a fazer - Rock Puro sem ligações a subgéneros - era o objectivo
 
Blasted Mechanism com António Chaínho e Kumpania Algazarra
O homem tornar-se-á mais subtil, a matéria será finalmente compreendida e a religião e a ciência serão diluídas na metafísica, nesta nova Era que será uma verdadeira Experiência Blasted.
Ao longo destes últimos anos os Blasted Mechanism tocaram com: Rage Against the Machine, Moby, Marylin Manson, Nick Cave, Beck, The Prodigy, Fantomas, Chemical Brothers, Patrice, Gentleman, System of a down, Asian dub foundation, Pearl Jam, entre muitos outros.
 
Blind Zero
Herdeiros da geração rock internacional, os Blind Zero cresceram nos palcos portugueses e ao longo de 13 anos de carreira são muitas as provas dadas. Autores do primeiro disco de Rock a atingir o galardão de Ouro por uma banda portuguesa no nosso país, «Trigger», os Blind Zero transformaram-se numa das formações mais coerentes e sustentadas da música nacional. Fiéis na sonoridade orgânica, com ambientes obscuros e por vezes psicadélicos, os Blind Zero possuem um reportório repleto de canções densas e complexas.
 
Brigada Vítor Jara com Manuel Freire – Tributo a Adriano Correia de Oliveira
Numa pausa do trabalho de abertura de uma estrada para os lados da Lousã, o acaso de uma "viola" e um coro de meia dúzia de vozes terá feito nascer a Brigada Victor Jara. Brigada porque o era de facto, de trabalho e de cantigas. Victor Jara pelo combate, acarinhado e sentado num camião do MFA a caminho de uma aldeia Beirã.
No início o canto era "de intervenção", em versões de cantigas de José Afonso, Sérgio Godinho, Victor Jara, Quilapayum. O primeiro contacto com a Música Tradicional (ou Regional? ou Popular?) teve-o no GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra), num ou noutro dos discos-de-capa-de-sarapilheira editados pelo Michel Giacometti, num ou noutro encontro com músicos ou cantadores populares.
 
Carlos Bica & Trio Azul com Frank Mobus e Jim Black
Comemorando este ano o seu 15º. Aniversário, o trio «Azul» de Carlos Bica é hoje uma das formações mais originais no panorama do jazz contemporâneo europeu. Desde que Bica gravou o seu primeiro álbum com esta formação (na qual colaboraram ainda o trombonista norte-americano Ray Anderson e a cantora portuguesa Maria João) são já quatro os títulos que o trio, entretanto, publicou e que vêm acrescentar-se à já notável e diversificada discografia do contrabaixista.
 
Cristina Branco – canta Zeca Afonso
Cristina Branco criou um estilo próprio, abordando fados tradicionais, temas próprios e canções populares, tendo sempre o cuidado de escolher as palavras, textos e poemas dos melhores poetas portugueses. Cristina Branco revitalizou o fado pela autenticidade com que o interpreta. Neste espectáculo Cristina Branco canta José Afonso.
 
Chicago Blues Harp All Stars (EUA)
Um tributo ao som dos blues de Chicago, por uma banda de gigantes da música norte-americana: o virtuoso da harmónica Steve Guyger, o ás do piano Anthony Geraci, o potente vocalista Nick Blue, o intenso guitarrista Otis Grand, apoiados por uma lendária secção rítmica.
 
Fanfare Ciocarlia (Roménia) & convidados: Esma Redzepova (Macedónia), Jony Lliev (Bulgária), Kaloome (França), Florentina Sandu (Roménia)
Fanfare Ciocarlia é uma banda romena composta por trompetes, clarinetes e bombos e conhecida pelos seus ritmos intensos e tempos acelerados.
 
Jacinta – Tributo a José Afonso
Aclamada na crítica portuguesa pela sua "voz quente, redonda, possante" (Miguel Soares, Comércio do Porto), Jacinta recebeu o prémio "Músico Revelação 2001" do programa Cinco Minutos de Jazz (Antena 1, desde 1966) e foi referida como ‘A cantora de jazz portuguesa', por José Duarte.
"Segura, conhecedora" (Emanuel Carneiro, Jornal de Notícias), Jacinta transmite emoção e garra no timbre da sua voz, complementando-a com um swing sólido e natural.
 
Levellers (Irlanda)
Desde o seu aparecimento na cena musical em 1988, os Levellers têm espantado e excitado os seus fãs em todo o mundo. Com as suas raízes bem assentes no folk punk eles têm levado este género musical a um nível de excelência, atestado com numerosos singles e álbuns a entrarem no Top 20 e um espectáculo ao vivo com poucos comparável, devido à sua energia em palco.
 
Couple Coffee Band
Ao vivo pretendem que o espectador embarque numa viagem pelo universo poético e musical de Zeca. Utilizando uma linguagem sincera, recriam alguns dos seus temas de referência (e outros menos óbvios) através de sonoridades ligadas à Bossa Nova, à Música Popular Brasileira (MPB) ou ao Jazz.
 
Peste & Sida
Os Peste & Sida alinham agora com João Sanpayo (elemento co-fundador da banda) na voz e no baixo, Orlando Cohen (membro da formação inicial) na guitarra, João Alves (No-Counts, Kamones) na guitarra e Marte Ciro na bateria. Juntam-se ainda os convidados João Gomes (Cool Hipnoise, Spaceboys) e Filipe Melo nas teclas e José Mário Branco, este numa homenagem a outro nome maior da música popular portuguesa. Com Década de Salomé os Peste fazem nova versão de Zeca Afonso - desta vez ao lado de um dos seus companheiros de estrada - e na força das suas palavras reconhece-se um mesmo espírito de combate: «a fina flor do entulho/largou o pêlo, ganhou verniz/será o christian dior o manageiro/a mandar no país?»
 
Quatro ao Sul
José Barros (José Barros e Navegante), Rui Vaz e José Manuel David (Gaiteiros de Lisboa) e Pedro Mestre (Tocador e construtor de violas campaniças), dão corpo a este novo grupo que tem como base inicial o Cante Sul, diferenciando-se por um novo repertório que vai mais para além do cante e das modas do Alentejo com a incorporação de temas populares e tradicionais do Mediterrâneo Europeu. O grupo continuará a recriar os ambientes das modas alentejanas acompanhadas pelas violas campaniças e a tocar este instrumento usando as técnicas originais. Por outro lado, à medida que o repertório o exigir, conta introduzir outros instrumentos acústicos da tradição mediterrânica.
 
Quarteto Matt Pavolka (EUA)
O quarteto do contrabaixista Matt Pavolka tem vindo a revelar-se um dos grupos mais interessantes e originais na área do novo jazz nova-iorquino, tendo integrado, conjunturalmente, alguns dos mais notáveis jovens músicos ligados a este movimento, como Darren Beckett, Mark Ferber, Jochen Rueckert, Dan Raiser, Bill McHenry, Rob Stillman, Sam Sadigursky, Chris Cheek e Jacob Sacks.
 
Sons da Fala: Sérgio Godinho (Portugal); Vitorino Salomé (Portugal); Tito Paris (Cabo Verde); Janita Salomé (Portugal); Luanda Cozetti (Brasil); Juka (São Tomé e Príncipe); André Cabaço (Moçambique); Guto Pires (Guiné Bissau); Quikkas (Angola)
O espectáculo desenvolve e aprofunda as linhas mestras que estiveram na origem deste projecto, tendo evoluido considerávelmente em termos musicais com o trabalho realizado em estúdio e nos espectáculos ao vivo. Trata-se de um espectáculo de miscigenação em torno da expressão musical lusófona em que 17 músicos conduzem o público numa viagem sonora ininterrupta sempre com o mesmo suporte instrumental, cantando repertórios pessoais e alheios, numa festa verdadeiramente apoteótica em que o convite à dança está implícito.
 
Trivenção
Criado em Junho de 2001, na cidade da Guarda, o grupo "TriVenção" presta Tributo à Música Portuguesa de Intervenção. Na Festa do Avante! a banda apresenta "Recordar Zeca e Adriano Sempre". Concerto imposto pela urgente necessidade de "re-acordar" para a música de carácter interventivo e sua função mensageira dos valores e da cultura do povo português. Mais do que músicas, Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira deixaram-nos como herança poemas que retratam temas e denunciam a realidade da vida social de outrora, é certo, mas sempre actual na sua essência.
 
Zappa – Low Budget Research Kitchen
Projecto dedicado exclusivamente à música de Frank Zappa, cuja obra, para além de invulgarmente extensa e extraordinariamente multifacetada, possui ainda várias outras características que a tornam única no panorama musical da segunda metade do séc. XX.
É uma arte que, se por um lado promove a fusão de várias estéticas, se mantém equidistante de todas elas, revelando uma originalidade absolutamente avessa a quaisquer escolas, movimentos artísticos ou outros academismos.
 
 
FESTA DO “AVANTE!” NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!
 

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Publicado por jpgn às 15:50
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Terça-feira, 1 de Maio de 2007

1º de Maio

Depois de uma semana no Parque Natural da Peneda-Gerês, subindo montanhas e descendo cascatas hoje é, como diz o meu filho, "Dia de Pijama"!

 

Mas nem por isso deixo de comemorar o Dia do Trabalhador, com um bolinho que está agora no forno e com esta pequena homenagem a todos os trabalhadores do Mundo!

 

Por cá, acredito que se comemore efusivamente. É, normalmente, quando sentimos algo em perigo que mais demonstramos o nosso apoio. E o Trabalhador está em perigo, como nunca esteve desde o 25 de Abril.

Cada vez mais, as medidas tomadas são em detrimento dos seus direitos, tudo em nome da competitividade, da concorrencia, da economia.

 

O Trabalhador está a voltar a ser uma máquina, feita apenas para trabalhar, devendo-se contentar pelo facto de alguem, de charuto na boca; de quem se fala na TV, e que fala na TV com a certeza das "coisas"; que vai passar férias ao espaço e está convencido que ainda vai estar num "r-e-s-o-r-t" (pronunciado à tia) na Lua; que anda de avião, helicópetro ou limousine; que não paga multas nem as suas obrigações para com o Estado; o Trabalhador, dizia eu, deve-se contentar por "esses alguéns" lhe dar um emprego. E sem refilar, que muitos há, cada vez mais, dispotos a comer e calar!

 

Não entendo, como se pode criticar a Função Pública pelos direitos que tem; eu prefiro criticar o meu "patrão" por não me dar esses direitos; eu prefiro criticar o meu Governo por não "obrigar" o meu "patrão" a dar-me os mesmos direitos!

 

 

Esta foto é do primeiro 1º de Maio livre em Portugal. Foi uma grande Manif. Talvez a maior que por cá houve.

Faz hoje 10 anos estava eu numa maior. A única que vi que suplantou esta. Uma experiência inolvidável: o 1º de Maio em Havana!


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Publicado por jpgn às 17:03
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Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

25 de Abril


Há dois anos vim viver para Mafra. Nunca me arrependi, antes pelo contrário, a cada dia que passa aumenta a certeza de ter tomado a decisão certa.Tudo o que procurava quando decidi “mudar de vida” aqui vim encontrar.

Tudo? Tudo não... à parte de um emprego (não muito procurado, é certo), também não encontrei o 25 de Abril. Nada! Na noite de 24 nem um sinal do dia mais lindo da nossa história. As ruas estavam desertas e, para qualquer pessoa mais distraída era uma noite como outra qualquer. Nunca, em 38 anos de vida, tinha estado numa terra em que este dia passasse tão ao lado!

Fica essa mágoa, mas fica também a esperança que um dia seja diferente. A esperança que Abril me ensinou a ter!

VIVA O 25 DE ABRIL! VIVA O SONHO QUE COMANDA A VIDA!
VIVA A LIBERDADE! VIVA PORTUGAL!


PS – Grande Grande Grande programa de homenagem ao Zeca que a RTP passou na noite de 24. Viva o Serviço Público!

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As Portas Que Abril Abriu


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinhiero estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos dos passado
se chamava esse país
Portugal suicidado

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas tabém tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer

E em Lisboa capital
dos nosvos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua prórpia pobreza

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo de mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas era olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desbobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabrões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os genarais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
apenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opões àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

Em em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalhos crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pédo Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua prórpia grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viesses ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povro soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser reoubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!


José Carlos Ari dos Santos

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Publicado por jpgn às 07:14
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Grândola Vila Morena


Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

José Afonso

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Terça-feira, 24 de Abril de 2007

E Depois do Adeus


Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós


Paulo de Carvalho

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Publicado por jpgn às 21:42
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